sexta-feira, abril 06, 2007

Galeria Luciana Barbeiro



ESCRÚPULOS

Aos poucos fui depondo meus escrúpulos
e há mentiras que me esforço em revelar jamais.
Forço-me sim a cometer rapinas
e guardá-las
que essa dor, enfim, vem dar-me um rosto humano.
(Não quero ser só, quero ser do mundo)
Vou cumprir na vida certa iniquidade,
que a imperfeição é a marca da verdade.
CARTAS
Peguei essas cartas como despojos
Juntando meus caquinhos
E me lembro da mãe que pediu ao filho mais novo
que olhasse pelo avô
Enquanto ele morria
Estirada, as pernas rotas
Meus olhos estatelados
Toda a vida
Toda a vida do meu corpo sabe
de toda superfície que contato
Dos barulhos nervosos da noite
E da adoração mal distribuída entre as pessoas
E tudo me comove.
E nada quero.
Chove.
INÍCIO
Quando ainda me achava imersa
nesses mares fundos
e as flores eram de um encantamento desolado
tinha um fio de luz que corria – não sabia como
e era ainda o mesmo que a experiência mágica dos livros.
Eis que paro
e fito
e compreendo
O escuro primitivo que não tenho.
Por hora,
venho
e quero
e canto
tanto quanto agora me alimente.


DESILUDIDOS

Tenho a serenidade dos desiludidos
E a não ansiedade de quem deixou de amar.
Tomo um prato de sopa
Sinto a pimenta na língua
Tusso.
Ocupo de novo meu tamanho exato.


MONTE AZUL

Luz pequena, aquela da noite daquela casa.
A mesma da praça, do banco da praça
e do foco nas asas dos bichos
zanzando e coçando na cara da gente.
Sofá de corvim, recheio saindo no rasgo.
Piso frio, mesa, novela, varanda.
Carrilhão ecoava no vozeirão das paredes.
No peso das horas passadas
tantas coisas que me desgostavam
Presentes ainda comigo no que me formaram.


TOCANTINS

Diante de mim, desfilam vários pedaços dispersos
Como que levados pelo imenso Araguaia:
Lentamente
Um calor de matar
Amigos da civilização distantes
Um naco de casa cor-de-rosa
A fala cantada do povo
Uma insistente ilusão de amor
Um persistente medo de não ser
E uma vontade enorme de construir.
Penduro umas roupinhas no varal.
O azul do muro é quase que o azul do céu.


NÃO AMARÁS

Flagro em mim atitudes de espírito que são desenhinhos
capengas de criança.
Então quero amarrar bem firme nas mãos
toda essa coisa chorosa de olhão grande e sentido obscuro
porque o amor também dói de muito puro.
E é assim que ele é,
descascado, corajoso e frágil
dando nós sobre nós.
Digo:
“aperte-o contra si como se um filho de carne”,
e fio a certeza mais certa ao vê-lo
de que tudo o mais é menos belo.

MÁCULA

Não consigo dispor de coisas velhas a que me afeiçoei,
que dirá das pessoas?
O amor não acaba - se soma
e a quantos mais se deu, mais se dá:
Como dizer “começar outra vez”,
se o quinhão do que já foi
ainda é pago todo mês
em cada falta que faz?

Poemas de
Luciana Barbeiro

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

"E tudo me comove!
Nada quero!
Chove!"

ou seria, choro?! ...

que beleza de densidade (esses poemas da luciana barbeiro)! isso é que é densidade, não é não?

quarta-feira, 11 abril, 2007  

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