sábado, novembro 03, 2007

POÊMA CEREBRAL

Saulo Marzochi


Cada vez que olho no espelho, esqueço da última coisa que estava pensando. Cada fio de cabelo, do pente ou do pentelho, olho e perco o meio, ou um outro par de meias. Enquanto ouço um riscar de isqueiro, lembro do último cigarro que estava fumando quando tirei o par de meias, mas agora não sei onde coloquei o pente, que estava usando quando perdi o fio da meada, ou do cabelo. Poderia estar em cima da pia molhada, ou embrulhado em alguma toalha, que agora lembro ter deixado sobre a cama, agora úmida, putz! Recém arrumada. Na cama a toalha não estava, só a marca de cheiro fresco e outro fio de pelo perdido da ninhada. Nada, de nada adianta ir cortar o cabelo, se não lembro mais onde fica o cerebelo, e se eles crescem de novo para mês em mês ir embora mais dez, quinze reais. Talvez não seja culpa do barbeiro, se aquele fio fosse de alguma pista da última vez que procurei revê-lo. E muitos pensamentos estão e são perdidos, gaveta sem fundo, baú de fundo aberto, e agora vivo revivendo aqueles dias todos que lembrei, aqueles pensamentos todos, que vivi e que perdi quando se foram por um ralo estreito. Pensamentos que uma vez pensei, voltarão a borbulhar do ralo, voltarão a gaveta como recém pensados e não me darei conta de que não terão novidade, serão gostos de arrotos, não terão o mesmo cheiro, cor, pulso de peito. Não terá volume, o ardor da primeira vez. Atormentava-me, idéia, de estar em dúvida sobre a própria lucidez. Se estava no lugar certo na hora errada, se estava na hora errada com a pessoa errada, se errava todos os dias, se falhava até no berro, na hora de necessitar, ou num pesadelo qualquer. E perco o traço, sei que perco o rastro, ao que percorro não há margem, pegadas se apagam onde passo e não sei como voltar, ou como encontrar o verbo. Some e me deixa apenas: Cadeira, Casa, João e Amarelo. Substantivos e adjetivos, sem ação pra ir nem para sair do meu voltar. Sigo sem lastro e sem querer, poder passar por uma trilha, um vapor, por onde andei, se foi me apagar, se foi submergir, se foi tornar possível diferenciar vida, sonho e pesadelo, se tudo é engano, ou na primeira, ou na última impressão. Sou cópia não autenticada do que gostaria de ser. Certeza, é uma flecha disparada que acerta em vôo, alvo, um, três, cinco centímetros do seu verdadeiro centro, senso ou êxito. Satisfação barata, verdade turva, dúvida, única coisa absoluta, dúvida, sólida e misteriosa como uma chave que por fora me tranca por dentro. Agora uma fresta resta para ver que lá outra criatura olha, porque sou a esquerda de uma direita, sou o neurótico que na superfície se enturva, sou dúvida disfarçada na simetria da certeza, sou aquele a quem no espelho dão as costas. Cada vez que olho no espelho vejo minha queda num abismo escuro. Está no fundo da pupila o negrume turvo que me embaça a vista e esgarça a imagem, ou será a própria retina distendendo uma miopia que desejo não saber, distorcendo a margem. É na mancha escura da margem que me localizo, braçadas sem rumo não tardam a cansar. É na parte escura do olho de minha própria face que me flerta a vista e me tira da manhã, me atirando por entre as constelações... O fundo preto do olho, abismo negro, mergulha, desaba, se perde, e me condena à mediocridade de querer me conter num quadro. Estarei eu disfarçado de mim mesmo no ângulo errado? A direção do olho vai à intenção do rosto que deseja o tosco, ilude, ilumina, pelo pulo, nu, escuro poço, falso fosso, pupila. Agora, isolado entre quatro paredes, quatro membros que invadem e seguram o tronco. São braços, pernas, de todas as partes, de outras pernas. Outros braços que se abrem em pares, membros são sempre pares, capazes de se deslocar, ir longe, voltar. Os passos olham para os dois lados e atravessam ruas. - Olha!!! – A criatura grita: - Já estou aqui! A Criatura vê praça, ônibus, carrinho de pipoca. Olho, e já viram teu rosto também! Será que era conhecido? Será que já não vi? E se vi, o que interessa? Já vi. E dejaviram muitos de todos vocês. Na rua, na estrada, calçada. No pé, da esquina, de carro, condução, trem, braço cruzado, olho fechado, zem. Na ambulância, cara de horror. Ou rua, pigarro, metrô. Ali! Já vi! Tem? Um olho aqui e o outro também, que eu nunca vi, ou só lembro de sua mochila. Outros rostos bizarros aparecem nos sonhos, e nos sonhos dos outros sonos. Um rosto aqui, um olho ali. Vejo pigarros, passos, bocejos. Esperas partidas, gracejos, ou choros desesperados. Volto ao ônibus, mochilas aos ombros. Uma mala equilibra-se no chão. Um olho aqui, outro acolá. Pode ser como eu, o homem de lá, o de camisa listrada, ou a senhora que está atrás de mim. Parada.


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Saulo Marzochi é poeta, escritor, designer gráfico e artista plástico. Autor de Boca Calada (Rio de Janeiro, 2007).